Categoria: Apostasia

  • Maçonaria e suas conspirações

    O Segredo Maçônico, páginas 45-52

    Em seu trabalho de subversão, a franco-maçonaria responsabiliza-se por três tarefas que representam sucessivas etapas em direção ao objetivo final.

    primeiro passo é trabalhar no interior de suas lojas. A franco-maçonaria gradualmente impregna seus iniciados dos princípios e ideais maçônicos. É mais uma sutil equivalência das técnicas de lavagem cerebral comunistas. Os irmãos formados dessa maneira compreendem grupos ativos na superfície das lojas.

    Segundo , é o trabalho de propaganda no mundo exterior. A franco-maçonaria tem aperfeiçoado uma muito efetiva técnica de propaganda oculta no mundo, de forma geral, que consiste em propagar e impor os ideais maçônicos além das lojas, sem revelar a fonte secreta de que essas correntes se originam. Como um dos oradores do Convento do Grande Oriente de 1922 expressou, “A maçonaria deve ser sentida por toda parte, mas em nenhum lugar sua face deveria ser desvelada”. Isso consiste em disseminar a crença na natural, inevitável e irresistível evolução do progresso humano.

    O terceiro passo em direção ao objetivo final está no campo da atividade política. A propaganda ideológica, como descrita acima, corre em paralelo com a conspiração política, cujo objetivo é tomar o poder e colocar franco-maçons em posições de comando. Na medida do possível, o público não deve saber que eles são maçons.

    Todo esse vasto campo de atividade é protegido por dois segredos: o segredo esotérico no interior das lojas maçônicas; e a ação política secreta fora das lojas.

    Deixe-nos agora passar ao estudo da natureza do segredo esotérico. No primeiro estágio, novos membros são atraídos pelas generosas e humanitárias profissões de fé da franco-maçonaria, e também pelas promessas de influência e assistência oculta.

    Os candidatos são cuidadosamente e perfeitamente escolhidos, examinados bastante tempo antes que eles estivessem mesmo próximos. Quando eles são recebidos no interior da loja, eles são levados a prestar um juramento de segredo, que é renovado toda vez que eles avançam a graus mais altos. Nesse ponto começa o segundo estágio na formação do candidato; tão logo ele venha a se tornar um Maçom, um processo de formação doutrinária (ou lavagem cerebral) começa, que continuará por toda sua vida.

    Os enunciados do princípio são escolher e expressar habilmente termos vagos, generosos e humanitários que podem ser interpretados de formas muito diferentes. Cautelosamente, e por fáceis estágios, um neófito aprende que esses termos têm um significado oculto, um significado mais alto, que ele não entenderá até que ele tenha experimentado iniciação mais distante. Nesse caminho, ele aprende, uma por uma, de uma sucessão de significados ocultos, que a ele é contado ser uma elevação à Luz, em que ele gradualmente se torna impregnado. Isso é o propósito da sucessão de diferentes graus; se o Maçom é receptivo, ele ascende na hierarquia Maçônica, e mesmo assim ele nunca em nenhum tempo sabe exatamente onde ele permanecerá ali, nem quantos maiores graus ou pessoas controlam a organização. Como na organização secreta comunista, alguém nunca está muito seguro se os degraus titulares correspondem ao real assento do poder.

    A franco-maçonaria é, portanto, em uma lógica, uma sucessão de sociedades secretas superpostas umas nas outras, cujo modus operandi tem sido vagarosamente desnudado, pelo menos em amplo contorno, por uma série de pacientes investigadores; todavia, ela continua desconhecida para o público geral e, de modo geral, continua a ser muito efetiva.

    Para justificar os enunciados acima, aqui estão uns poucos textos maçônicos emanandos de altos dignatários na Ordem, que eles mesmos admitem serem iniciados em um alto nível.

    “Os Graus Azuis”, escreveu Albert Pike, “são apenas a recepção exterior ou pórtico do Templo. Parte dos símbolos estão mostrados ali para o Iniciado, mas ele é intencionalmente enganado por falsas interpretações. Não é tencionado que ele venha a entendê-los; mas é tencionado que ele venha a imaginar entendê-los. Sua verdadeira explicação é reservada aos Adeptos, os Príncipes da Maçonaria. Todo o corpo da arte Real e Sacerdotal era escondido tão cuidadosamente, desde séculos, nos Altos Graus, como que fosse mesmo assim impossível resolver vários dos enigmas que eles contêm. É bem suficiente para a massa daqueles chamados de Maçons, imaginar que tudo está contido nos Graus Azuis; e cujas tentativas de apontar o erro deles será em vão, e sem qualquer recompensa verdadeira por violar essas obrigações como um Adepto. A Maçonaria é a verdadeira Esfinge, enterrado até a cabeça nas areias espalhadas em volta pelos tempos.” (A. Pike: Morals and Dogma, p. 819)

    O bem-conhecido Maçom inglês, Wilmshurst, diz a mesma coisa:

    “O método em questão (da franco-maçonaria) é de iniciação; a convenção e a prática é aquela de alegoria e símbolo, que é de obrigação do franco-maçom, se ele deseja compreender esse sistema, trabalhar para interpretar e pôr em interpretação pessoal. Se ele falhar nisso, ele ainda fica- e o sistema deliberadamente tenciona que ele deveria-na escuridão sobre os segredos e significados da Ordem real, embora anteriormente um membro dela.” (W. L. Wilmshurst : The Maçônico Initiation, 1957, PP- 4-5)

    E mais adiante ele diz:

    “Nós professamos conceder a iniciação, mas poucos Maçons sabem o que a real iniciação envolve; muito poucos, alguém suspeita, teriam o desejo, a coragem, ou a disposição de fazer os necessários sacrifícios para realizar isso.” ( W. L. Wilmshurst, ibid., p. 17)

    Por seu lado, Irmão Oswald Wirth, tão elogiado por Mellor, nos conta que:

    “Quando a franco-maçonaria, ou por essa matéria qualquer outra confraria baseada na iniciação, orgulha-se de sua impenetrável manta de segredo, não é um caso do transferível, mas do inteligível conteúdo dos mistérios. Alguém pode divulgar apenas a carta morta, não o espírito, que de seu próprio consentimento revela-se àqueles que são privilegiados em entender.

    “É um assunto sério pedir a Iniciação, para alguém que tem que assinar um pacto. Concordado, não há nenhuma assinatura externa, formal, visível; não pode ser comparada com assinar um nome com sangue, por ser puramente moral e imaterial, demanda que a alma do homem seja verdadeiramente comprometida no ato. Não é, portanto, como dirigir uma barganha com o Demônio, em que aquele Mau permite que ele mesmo seja enganado; é um acordo seriamente interiorizado em ambos os lados, e não há escapatória dessas cláusulas. Os iniciados de fato fecham um pacto dentro de certas obrigações dirigidas aos discípulos assim admitidas aos seus ensinos, já que o próprio discípulo está, por aquele absoluto fato, indissoluvelmente amarrado aos seus mestres. . . .

    “Note que os guias nunca são vistos e não empurram a si mesmos adiante. . . .

    “Nos fundamentos de qualquer real iniciação há certos obrigações contraídas. Tome cuidado então de bater na porta do Templo se você não está resolvido a se tornar um novo homem. . . .

    “Tudo não seria nada mais do que uma armadilha e uma desilusão, se você não pedisse para ser iniciado livre de toda obrigação, sem pagar com sua alma para sua entrada na fraternal comunhão com os pedreiros desse grande edifício humanitário, cujo desenho tem sido traçado pelo Grande Arquiteto do Universo. . . .” (O. Wirth: L’Idéal Initiatique, pp. 10-11)

    Desta forma, há uma teologia secreta na franco-maçonaria, para usar a aguda expressão de Rabbi Benamozegh, em seu livro Israel et l’Humanité e, nesse contexto, ele está em total concordância com os escritos Maçônicos dos quais nós citamos, se Francês, como Oswald Wirth, Inglês, como Wilmshurst, ou Americano, como Albert Pike; se “regular” ou “irregular”, para usar os termos do Sr. Mellor.

    Então vem o segundo estágio nas atividades secretas da Maçonaria-atividade secreta do lado de fora das lojas-que consiste em expandir e implantar por todo o mundo os ideais filosóficos da franco-maçonaria sob uma cobertura comum de humanitarismo .

    Esse trabalho é consumado por infiltração secreta e a circulação secreta de ideais, por meios de uma técnica admiravelmente descrita para nós pelo Franco-maçom Regis, quando falava no Convento do Grande Oriente em 1928:

    “Sob a influência do Grande Oriente, e na tranquilidade e silêncio de nossos Templos, nós deveríamos estudar todas as mais importantes questões que afetam a vida de comunidades, da Nação e da humanidade em geral. Nossos Irmãos estarão perfeitamente bem informados; eles deixarão o Templo bem instruídos, totalmente equipados para a batalha adiante. Eles nos abandonarão seus aventais e suas insígnias exteriores da Maçonaria; eles afundarão na cidade da mesma forma que cidadãos comuns, mas cada um estará perfeitamente impregnado de nossa visão de mundo, e cada um, em seu circulo profano, em seu partido ou sua união, agirá de acordo com sua consciência, já que, eu repito, ele estará saturado pelo ensinamento que ele tem recebido.

    “O resultado será rico, não porque é oculto, mas porque a influência da Maçonaria gradualmente penetrará em todo lugar; para a confusão do mundo profano, o mesmo espírito e a mesma unidade de ação forçarão seus caminhos adiante, e, como em um bem construído silogismo, uma certa conclusão produzindo inevitáveis consequências gradualmente emergirá e irá se impor em seu ambiente profano.

    “Sobre e acima de todas nossas outras lealdades, um poder não pode negar que nos governa; esse poder é o poder espiritual chamado franco-maçonaria.

    “E por que não seguir esses orgulhosos pensamentos para sua conclusão lógica? Porque nós sabemos mais, porque nós trabalhamos adiante em linhas mais profundas que a massa daqueles que pertencem a grupos profanos, e é quase inevitável que nós venhamos a tomar o seu comando. Deixem-nos esconder nossa luz sob um bushel; para uma grande extensão sem precedente, e desta forma muitos corpos profanos fiquem sem problema de receber uma infusão de nosso quente, sangue vivo. Eu estou perfeitamente bem ciente que nós, discretamente, formamos a elite em todos os grandes partidos sociais sociais e políticos, e que desta forma nós estamos seguros de estarmos aptos a controlar sua política. É nossa obrigação-Eu repito, nossa obrigação-ter certeza que nós controlamos os políticos que são eleitos, que nós corrijamos seus erros, e mostremos a eles seus enganos, e os repreendamos pelo que eles têm falhado em fazer. Em uma palavra, a franco-maçonaria deveria ser a `consciência do político’.” (Irmão Regis, Convento do Grande Oriente 1928, p. 256)

    Finalmente, nós chegamos ao terceiro estágio do trabalho da Maçonaria, que é sua intervenção direta na política.

    Isto é como Leão XIII descreveu-a em sua Encíclica de 19 de Março de 1902:

    “A franco-maçonaria é a permanente personificação da Revolução; ela constitui um tipo de sociedade em reverso cujo objetivo é exercitar uma soberania oculta sobre a sociedade como nós sabemos, e cuja única raison d’étre consiste em travar guerra contra Deus e Sua Igreja”. (Encíclica: No 25º Ano de Nosso Pontificado)

    É instrutivo, nesse contexto, comparar a conclusão do famoso Papa com as seguintes passagens do igualmente renomado franco-maçom, Oswald Wirth:

    “A causa da franco-maçonaria se tornou identificada com a causa da República, e se campanhas eleitorais às vezes absorveram tantas vezes os assuntos das lojas, a razão é que todos os amigos do progresso, procurando dar um golpe final nos clérigo e reacionários, ridicularizados juntos sob o estandarte da Maçonaria.” (O. Wirth : Le Livre de l’Apprenti, p. 80)

    “Se nesses momentos de agonia civil, as lojas tinham se limitado ao que nós podemos chamar de sua ocupação normal em tempo de paz, elas teriam falhado em sua mais sagrada obrigação, pois elas teriam recusado defender a herança das liberdades conquistadas pelos nossos valiosos ancestrais. É para sua honra que elas têm quebrado suas regras, lançando-se com toda pressa na arena política. Elas formaram-se no interior de comitês eleitorais para salvar a República, esquecendo momentaneamente a alta filosofia humanitária cujo culto é o alvo básico da franco-maçonaria.” (O. Wirth : L’Idéal Initiatique, p. 82)

    A franco-maçonaria tem tomado as rédeas da política internacional, e especialmente em todos os movimentos revolucionários que têm sacudido a Europa e o mundo desde 1789: em 1830, 1848, e 1871 na França; em 1848 e 1917 em outro lugar na Europa, para mencionar apenas os mais importantes exemplos. A franco-maçonaria gaba-se de ter sido tanto a inspiração e a secreta governadora da Terceira República na França (1870-1939), e é a franco-maçonaria que tem estado na vanguarda da luta contra a Igreja Católica na França, Itália, Espanha, Portugal e Áustria-ou, em uma palavra, todo lugar por onde a Igreja fosse a religião do país. Nós não nos propomos a reescrever essa história aqui, nem mesmo a resumir as atividades políticas da franco-maçonaria; nós somente mencionamos isso para lembrar ao leitor que esse é um fator que deve ser levado em conta. (Para um completo estudo dessa questão, veja Leon de Poncins : The Secret Powers behind Revolution.)

    Mas um ponto que nós devemos enfatizar nesse contexto é o segredo cercando todas essas atividades.

    A franco-maçonaria praticamente nunca é mencionada na Imprensa; livros de história silenciam-se a respeito do poder e influência da Ordem, e os governos e parlamentos nunca ousam debater um tal perigoso assunto. Reportagens de encontros maçônicos e congressos não estão disponíveis ao público; revistas e publicações maçônicas não são colocadas na Bibliothéque Nationale ou no British Museum, embora a lei do país demande isso.

    Em geral, nós podemos dizer que a franco-maçonaria tem se sucedido em dirigir suas atividades políticas em segredo. Mas nenhum segredo pode ser guardado indefinidamente, e quase sempre é possível descobrir as origens maçônicas de uma decisão política, assim e assado-só por aquele tempo que é geralmente tão tarde para escondê-lo. Nós escolhemos os seguintes exemplos de história para ilustrar esse ponto:

    O tratado de paz de 1918 foi diretamente inspirado pela Maçonaria. Suas cláusulas foram trabalhadas em uma grande conferência internacional maçônica que tomou lugar em 28, 29 e 30 de Junho de 1917, no quartel general do Grande Oriente da França na Rue Cadet, Paris. Essa conferência foi cuidada por representantes das principais lojas de países aliados e neutros-Itália, Suíça, Bélgica, Sérvia, Espanha, Portugal, Argentina, Brasil, Estados Unidos (de onde duas lojas em Arkansas e Ohio, não representadas, enviaram cordiais saudações) e assim por diante; somente a Grande Loja da Inglaterra não esteve representada. Em 1936, as minutas completas desse encontro vieram à tona e foram publicadas em sua integridade, acompanhadas por um detalhado comentário, em Leon de Poncin’s : La Société des Nations-Super-Etat Mgonnique, em que todas as informações e documentos nos seguintes parágrafos foram conseguidos.

    As preparações para o Congresso em Junho foram postas em mão no começo de Janeiro de 1917, como as minutas do subseqüente encontro relatam:

    “Enviando a você o sumário de minutas da Conferência Maçônica das Jurisdições das Nações Aliadas, que foi preparado em Paris em 14 e 15 de Janeiro de 1917, assim como as resoluções e o manifesto aí adotado, é nosso privilégio informar a você que esse Congresso decidiu organizar um Congresso Maçônico no Grande Oriente da França, em Paris, nos próximos dias 28, 29 e 30 de Junho.

    “O objeto desse Congresso será investigar os meios de elaborar a Constituição da Liga das Nações, assim como prevenir a repetição de uma catástrofe similar para uma presente cólera que tem precipitado o mundo civilizado em lamentação.

    “Foi opinião dessa conferência que esse programa não pode ser discutido somente pela franco-maçonaria das Nações Aliadas, e que isso é uma matéria também para os corpos maçônicos das nações neutras para trazer qual luz o eles possam ter para a discussão de um problema tão grave. . . .

    “É responsabilidade da franco-maçonaria na conclusão do drama de agora estar representada para fazer sua grande e humanitária voz ser escutada, e guiar as nações em direção a uma organização geral, que se tornará sua salvaguarda. Seria faltar com sua obrigação, e falso para seus grandes princípios, manter isso em silêncio. . . .

    “É claramente compreensível que o Congresso Maçônico se confinará inteiramente no campo humanitário, e que, em conformidade com as Constituições Maçônicas, não tocará em qualquer questão de natureza política.

    “Nós estaríamos muito gratos em receber de você a garantia de seu apoio com o mínimo atraso possível. . . .” (Leon de Poncins; La Société des Nations, pp. 65-67)

    (Os grifos são nosso)

    Fonte: http://reconquest.blogspot.com/

  • Conspiração na História: exemplos do Antigo Testamento

    Conspiração na História: exemplos do Antigo Testamento

    Orlando Fedeli

    A tese conspirativa da História é rejeitada pelos liberais, pois é incompatível com sua crença na bondade natural do homem. De outro lado, ela é exposta de modo ridículo por certa literatura anti-maçônica, que em tudo vê ações secretas, conciliábulos, maquinações fantasmagóricas, intrigas rocambolescas e que imagina simbologias cabalísticas misteriosas nas coisas mais simples. Foi a cosmovisão conspirativa que Umberto Eco caricaturou na obra “Il Pendolo de Foucault”.

    Trata-se de duas posições antagônicas. Uma nega quaisquer conspirações, porque o homem é bom e a conspiração pressupõe maquiavelismo e maldade inexistentes. Outra em tudo vê o mal, vislumbrando o maçom embuçado, o judeu marrano e revolucionário, o terrorista atrás de cada esquina da História. Ambas pecam por excesso. E se de fato existe uma conspiração na História, tanto o liberalismo ingênuo, quanto o imaginativo anti-maçonismo direitista ajudam a ocultá-la: o primeiro pela sua tola negação; o segundo pelo excesso caricato.

    Conspirar vem do latim conspirare , que significa literalmente aspirar com outros, aspirar coletivamente, isto é, trabalhar junto com outros para obter um fim.

    Sendo o homem um ser racional e social, é natural que ele procure se associar a outros para alcançar finalidades que, sozinho, não pode atingir. Literalmente, o homem está sempre conspirando. Quando ele organiza uma festa ou um jogo com amigos, ele aspirou junto, conspirou. Quando se inscreve num curso ou organiza uma firma com sócios, ele conspirou, isto é, aspirou junto com outros alcançar o saber ou o lucro.

    Se um grupo de bandidos organiza um assalto, um seqüestro, uma revolução, eles também estão conspirando. Nestes casos, em que se visam fins ilícitos, é claro que a conspiração tem que ser secreta.

    Ninguém organiza pública e abertamente um cartel como o de Medellin. Mascara-se uma associação criminosa com fins publicamente inocentes. Quer a associações com objetivos criminosos secretos quer a sociedades secretas, a ambas cabe, em sentido próprio, o termo conspiração.

    Entretanto, o homem comum tem dificuldade para crer em conspirações. É custoso para a inocência e a honestidade imaginar a malícia e o crime. Elas tendem a verem tudo correção e liceidade. Acresça-se a isso o romantismo sentimental, a influência das idéias liberais sobre a bondade do homem, a dificuldade ou incapacidade da maioria das pessoas em arquitetar planos a longo prazo e a crença na inexistência ou na aposentadoria do demônio, e se compreenderá como hoje é difícil mostrar que na História – desde os primeiros tempos – há uma enorme conspiração diabólica para perder as almas.

    O que torna explicável a História é a luta entre duas conspirações, a conspiração de Deus e a do demônio.

    Para salvar as almas, Deus organizou a divina “conspiração” da Igreja. Para perdê-las, o demônio organiza aquilo que o Papa São Gregório Magno chamou nos Morales de Anti-Igreja. É o que Santo Agostinho descreveu com maestria na Civitas Dei:

    “Dois amores deram nascimento a duas cidades: a cidade terrestre procede do amor de si até ao desprezo de Deus; a cidade celeste procede do amor de Deus levado até ao desprezo de si” (De Civit. Dei, lib. XIV, c. 28).

    Esta mesma idéia é descrita por Santo Inácio como a batalha das duas bandeiras, a de Cristo contra a do demônio. É a luta que o Evangelho de São João afirma existir entre os filhos da luz e os filhos das trevas, e que fôra anunciado no Gênesis pelo próprio Deus quando disse: “Porei inimizade entre ti (a serpente) e a mulher, entre a tua raça e a dela, e ela mesma te esmagará a cabeça.” (Gn. III, 15).

    Deus, infinitamente sábio, usa alguns homens para salvar outros. Também o demônio, astutamente, procura usar homens para perder outros. Deus organizou a Igreja. O demônio organiza os maus – seus filhos – numa anti-Igreja, que, por sua natureza – tendo em vista seus fins -, tem que ser secreta.

    Dissemos que desde os primeiros tempos houve uma conspiração diabólica para perder as almas. Neste artigo, não pretendemos fazer uma demonstração exaustiva de que na História, desde todos os séculos – como disse Leão XIII na Humanum Genus – os maus se articulam para combater o bem, a Igreja e a Cristo.

    Queremos apenas chamar a atenção para alguns sinais dessa conspiração nos tempos anteriores a Cristo tendo como base a própria Sagrada Escritura. Com isso visamos abrir os olhos de mentes católicas que recusam-se a ver que há uma conspiração na História, ou que imaginam ingenuamente que a conspiração começou em 1714 com a constituição maçônica feita por Anderson, conforme dizem os livros maçônicos e anti-maçônicos.

    Na Escritura se lê que, com a permissão de Deus, Satanás destruiu os bens de Jó, matou seus filhos e causou-lhe uma grave chaga da cabeça aos pés. Para fazer estes males, está escrito que Satanás, além de utilizar forças naturais (raios, furacões), instigou os Sabeus e organizou os Caldeus em três esquadrões (Jó I, 13-20). Deus revelou nesse texto que o demônio, com Sua permissão, pode usar quer os fenômenos naturais quer os homens e até organizar povos inteiros para fazer o mal.

    No caso de Jó, a ação diabólica visava apenas um homem. Mas com a propagação da idolatria, o que o demônio visava era a perda de povos inteiros, porque – é preciso não esquecer – os deuses pagãos eram demônios, como se lê nos Salmos e em São Paulo. “Porque todos os deuses pagãos são demônios” (Sl. XCV, 5) e “Ou o ídolo é alguma coisa? Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios” (São Paulo, I Cor. X, 19-20).

    Com a idolatria, o demônio dominou todos os povos gentios. Narra o Evangelho que quando Cristo foi tentado, “o demônio o transportou a um monte muito alto e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua magnificência. E lhe disse: Tudo isto te darei, se prostrado me adorares” (Jo. IV, 8-9).

    “E o demônio conduziu-o a um alto monte, e mostrou-lhe num momento todos os reinos da terra, e disse-lhe:

    Dar-te-ei o poder de tudo isso, e a glória desses (reinos) porque eles me foram dados, e eu os dou a quem me parece. Portanto, se tu me adorares, todos eles serão teus” (São Lucas IV, 5-8).

    Cristo repeliu a tentação, dizendo que só a Deus devia se adorar, mas não negou o que Satanás afirmava: que todos os reinos do mundo eram dele na época em que Cristo veio à terra. Eram seus pela idolatria, porque ao adorar os ídolos todos esses povos adoravam ao próprio demônio. Tanto eram dele que seus reis e dirigentes maquinavam planos contra Deus e contra o seu Cristo. Conspiravam e Deus se ria de suas pretensões.

    “Por que razão se amotinam as nações, e os povos maquinam planos vãos? Os reis da terra sublevam-se e os príncipes coligam-se contra o Senhor e contra o seu Messias. Quebremos (disseram) as suas cadeias e sacudamos de nós seus laços. Aquele que habita nos céus ri-se, o Senhor zomba deles” (Sl. II, 1-4).

    E Israel estava incluído no “tudo isso é meu” afirmado por Lúcifer, quando tentou a Cristo?

    A cegueira com que se negaram a ver a luz de Cristo mostra que sim. Ademais o próprio Cristo afirmou que os fariseus, que eram os dirigentes do povo judeu, eram filhos do demônio. “Vós sois filhos do demônio e quereis satisfazer os desejos de vosso pai (…) o pai da mentira” (João VIII, 44).

    Como e quando o pai da mentira dominou os judeus?

    A destruição de Jerusalém por Nabucodonosor no VI século a.C. comprova que já então os judeus se tinham entregue ao demônio. Deus mostrou então ao profeta Ezequiel, em visão, que permitira tal castigo pelos pecados de idolatria cometidos secretamente pelos sacerdotes e dirigentes do povo. A descrição da visão lembra um enredo de mistério.

    “E conduziu-me à entrada do átrio e olhei, e eis que havia ali um buraco na parede. E disse-me: filho do homem, escava a parede. E tendo eu escavado a parede, apareceu uma porta. E Ele me disse: entra e vê as péssimas abominações que estes aqui cometem. E tendo entrado, olhei, e eis que havia ali imagens de toda a sorte de répteis e de animais, a abominação de todos os ídolos da casa de Israel estavam pintados na parede por toda a roda. E setenta homens dos anciãos da casa de Israel estavam em pé diante destas pinturas, e Jezonias, filho de Safar, também em pé no meio deles; e cada um tinha na sua mão um turíbulo;

    e o fumo do incenso, que deles saía como uma névoa, elevava-se para o alto. E Ele me disse: vês bem, filho do homem, o que os anciãos da casa de Israel fazem nas trevas, o que cada um deles pratica no segredo de sua câmara; porque eles dizem: O Senhor não nos vê, o Senhor desamparou a Terra” (Ez. VIII, 7-13).

    Em seguida Deus lhe faz ver que até mesmo “entre o vestíbulo e o altar” havia quem “adorava o sol que nascia” (Ez. VIII, 16).

    Nessa curiosa visão, Deus mostra que os sacerdotes de Israel, nas trevas, em segredo, se entregavam à idolatria. Para chegar ao local dos seus crimes havia que utilizar passagens secretas… Na superfície, os sacerdotes ensinavam a religião verdadeira. Nas trevas, em segredo, praticavam outra. Quase 600 anos antes de Cristo, os sacerdotes e chefes judeus haviam renegado a religião verdadeira, ocultamente.

    Se eles agiam secretamente é porque o povo ainda era suficientemente fiel para não tolerar a idolatria pública. Contudo, Deus destruiu Jerusalém punindo todo o povo pelo pecado dos chefes, porque o crime dos governantes afeta a nação enquanto tal.

    Continuamente se lê nas profecias que a apostasia do povo é atribuída especificamente aos sacerdotes, anciãos e governantes judeus.

    “Verdadeiramente o ponteiro mentiroso dos escribas gravou a mentira” (…) “desde o profeta até o sacerdote todos forjam a mentira” (Jer. VIII, 8-10).

    Foram os sacerdotes que perderam a fé, duvidando da Escritura e adorando Baal. O Deus invisível estava além das nuvens, distante. O ídolo, o demônio, lhes parecia mais próximo e acessível.

    “Os sacerdotes não disseram: `Onde está o Senhor?’. Os depositários da lei não me conheceram, e os pastores prevaricaram contra mim, e os profetas profetizaram em nome de Baal, e seguiram os ídolos” (Jer. II, 8).

    Ao invés de cuidar do povo, seus dirigentes o maltratavam e desencaminhavam.

    “O Senhor entrará em juízo com os anciãos de seu povo e com os seus príncipes; porque vós devorastes a minha vinha, e as rapinas feitas ao pobre encontram-se em vossa casa” (Js. III, 14).

    “Porque os pastores obraram loucamente, e não buscaram o Senhor; por isso não entenderam e todo o seu rebanho se dispersou” (Jer. X, 21).

    “Foram confundidos os da casa de Israel, eles e os seus reis, os príncipes e sacerdotes, e os seus profetas, os quais diziam a um pau: `Tu és meu pai’; e a uma pedra: `Tu me geraste.’” (Jer. II, 26-27).

    “Coisas espantosas e estranhas se tem feito nesta terra: os profetas profetizam a mentira, e os sacerdotes aplaudiam-nos com as suas mãos; e o meu povo amou essas coisas” (Jer. V, 30).

    “E aos profetas de Jerusalém vi imitar os adúlteros (ou idólatras) e ir após a mentira; e fortificaram a mão dos malvados para que nenhum se convertesse de sua malícia” (Jer. XXIII, 30).

    “Porque dos profetas de Jerusalém é que se derramou a corrupção sobre toda a terra” (Jer. XXIII, 15).

    Esses textos curiosíssimos afirmam sempre que foram os chefes, os sacerdotes e os profetas que perderam o povo de Deus, acreditando na mentira (no singular) e adorando ocultamente os ídolos.

    Não adiantava, porém, conspirar ocultamente, pois o Deus que tudo vê, conhece as maquinações secretas e os mais íntimos arcanos dos corações:

    “Poderá alguém ocultar-se em lugares ocultos, sem que eu o veja? (…) Eu ouvi o que disseram os profetas, que em meu nome profetizavam a mentira (…) profetas que vaticinaram a mentira (…) os quais querem fazer que meu povo se esqueça de meu nome” (Jer. XXIII, 24-27).

    Portanto, os castigos infligidos por Deus ao Reino de Judá foram causados por uma apostasia oculta concertada pelos sacerdotes que pretendiam corromper o povo ensinando a mentira em nome do Deus da Verdade.

    Que houve uma conspiração no sentido etimológico e próprio está declarado na Sagrada Escritura pelo profeta Isaías que registra estas palavras de Deus:

    “Porque o Senhor Deus me falou assim, (tomando-me) com sua mão poderosa e avisando-me para não seguir pelo caminho deste povo dizendo: `Não digais: Conspiração; porque tudo o que este povo diz é uma conspiração” (Isaías VIII, 12).

    A finalidade dessa conspiração está explícita em Jeremias:

    “E o Senhor me disse: Uma conjuração se descobriu entre os varões de Judá, e entre os moradores de Jerusalém. Tornaram às antigas maldades de seus pais, que não quiseram ouvir minhas palavras; e estes também foram após deuses estranhos para os servir; a casa de Israel e a casa de Judá romperam a aliança que eu fiz com seus pais” (Jer. XI, 9-10).

    A conspiração dos chefes de Israel e Judá foi feita para levar o povo eleito à idolatria, isto é, a cultuar o demônio.

    “Por esta causa ouvi a palavra do Senhor, homens escarnecedores que dominais sobre o meu povo, que está em Jerusalém. Porque vós dissestes: `Nós fizemos um concerto com a morte, e fizemos um pacto com o inferno (…) porque pusemos nossa confiança na mentira, e pela mentira fomos protegidos” (Isaías XXVIII, 14-15).

    A conspiração dos dirigentes judeus no Antigo Testamento para levar o povo a adorar os ídolos foi selada com um pacto com o próprio inferno, isto é, com o demônio. A conspiração era diabólica porque visava levar à adoração do demônio e era dirigida por ele.

    “E puseram os seus ídolos na casa em que o meu nome foi invocado para o profanarem” (Jer. XXXII, 34).

    Pois ao demônio não basta ser adorado: ele quer profanar o Templo de Deus, fazendo colocar a abominação no lugar santo.

    Todo esse mal era resultado de uma adesão consciente à mentira, uma vontade decidida a fazer o mal que levava os conspiradores a arquitetarem e estudarem o modo mais eficaz para levar o povo ao pecado.

    “Jerusalém (…) confiou na mentira” (Jer. XIII, 25).

    “Abraçaram a mentira e não quiseram voltar” (Jer. VIII, 5).

    “Habituaram a sua língua a dizer a mentira; estudaram como haviam de fazer o mal.” (Jer. IX, 5) e imitaram “os maus costumes das nações” (Jer. X, 2).

    Por que dizem os profetas continuamente que os dirigentes judeus abraçaram, registraram e ensinaram a mentira, empregando o termo no singular?

    Isto deve ser relacionado com a afirmação de Cristo, que chamou o diabo de “pai da mentira” (São João VIII, 44), na ocasião de sua grande discussão com os fariseus, aos quais chamou de filhos do demônio, isto é, os membros da raça da serpente (Gen. III, 15). Qual é essa mentira por excelência de que o demônio é pai?

    Deus é a Verdade e, como Ele é um, há uma só Verdade. Nota essencial da fé verdadeira é a unidade (S. Paulo, EF. IV, 5-13). Ora, o demônio ataca a única fé com mil heresias diversas, pois que é próprio do erro a multiplicidade e não a unidade. Contudo, se estudarmos as heresias, veremos que há nelas algo subjacente comum a todas, a par de seu ódio e sua negação da Verdade única. Isto faz com que na multiplicidade infinda dos erros haja uma certa forma de unidade (unidade secundum quid ), escondida sob os mitos e

    mentiras dos sistemas heréticos. Esse substrato comum, matriz de todos os erros, nega as verdades mais profundas e fundamentais a respeito de Deus, isto é, do Ser. O substrato comum a todas as heresias é a Gnose. Ela é a mentira por antonomásia. É a revolta anti-metafísica.

    O termo Gnosis, em grego, significa conhecimento. Essa doutrina pretende dar ao homem um conhecimento salvífico, redentor, ao lhe proporcionar:

    1) o conhecimento da essência divina;

    2) o da natureza secreta e divina do homem;

    3) o conhecimento do que são o mal e o pecado. (cfr H. C. Puech, Enquête de la Gnose, Gallimard, Paris,1978, vol. I, pp. 168-236; Robert M. Grant, La Gnose et les origines cheretiènes, Seuil, Paris, 1964, pp. 18-19).

    A respeito da unidade gnóstica subjacente às diversas seitas heréticas convém ler o que diz S. Irineu no Adversus Haeresis, Migne, vol. VII; S. Hipólito de Roma, La Gnose et le temps, Gallimard, Paris, vol., p. 235;

    Serge Hutin, Les gnostiques, pp. 6-9; Robert M. Grant, op. cit., p. 17.

    O que a Gnose pretende conhecer, antes de tudo, é a essência da divindade, ou seu processo interior.

    Ora, nos Provérbios, sintomaticamente Deus previne contra essa pretensão, dizendo:

    “Assim como não faz bem o mel àquele que o come em demasia, assim o que quer sondar a majestade (divina) será oprimido pela sua glória” (Prov. XXV, 27). Se Deus repreendeu essa pretensão, é que já nos tempos do Antigo Testamento havia entre os judeus quem procurasse “sondar a majestade divina”, como faziam os gnósticos.(“Sabemos que já no período do Segundo Templo uma doutrina esotérica era ensinada em círculos fariseus” (G.G. Scholem – A mística judaica – Major trends in jewish mysticism – Perspectiva. S. Paulo, 1972, p. 41)

    Para a Gnose, Deus não é aquele que é (Ex. III, 14), e sim um constante vir-a-ser. Ele seria a mudança. Ora, é interessante que Deus tenha prevenido os judeus contra essa mentira dizendo:

    “Pois eu sou o Senhor e não mudo”, “Ego enim Dominus et non mutor” (Mal. III, 6).

    Para várias seitas gnósticas, a divindade original é chamada contraditória ou dialeticamente de Tudo e Nada ao mesmo tempo. Na Grécia, essa divindade era o Pan (tudo) e Bythos (o vazio). Na India é Brahman (tudo) e o Nirvana (nada absoluto). O Bhagavad Gita diz que essa divindade é ser e não-ser, é aquele que está além” (Bhagavad Gita, XI, 37).

    “Eu sou o ser e o não-ser” (Bhagavad Gita, IX, 19).

    Nos fragmentos heraclitanos se lê: “Um único ser, o único sábio, quer e não quer ser chamado Seus” (Heráclito, Frag. 32, Diels. ).

    O gnóstico Basílides dizia que o nome do que existia e não existia era nada (S. Hip., Philosophoumena, I, 21, VII, 20-21, vol. II, p. 103).

    Na Cabala se ensina que o Em-Sof é o nada (cfr. G. G. Scholem, Major trends in jewish mysticism – A mística judaica, Perspectiva, S, Paulo, 1972, pp. 12-13). G. G. Scholem diz que “ser e não-ser não são senão diferentes aspectos da realidade divina que no fundo é um super-ser” (G. G. Scholem, Les origines dela Kabbale, p. 448).

    Ora, é curioso notar que Deus repreende, no Antigo Testamento, aqueles que confiaram no nada:

    “Os vossos lábios falaram a mentira e a vossa língua profere a iniqüidade. Não há quem invoque a justiça, nem há quem julgue segundo a verdade, mas confiam no nada” (Isaías LIX, 3-4).

    A Gnose afirma que o homem possui no mais íntimo de seu ser uma partícula divina, uma centelha de Deus, uma Funkenlein, como dizia mestre Eckhart. Por isso, a essência última do homem seria divina. O homem seria um deus decaído que era preciso libertar das prisões da materialidade, da racionalidade, da moral.

    Quando todas as partículas divinas esparramadas pela natureza de novo se reunirem, a divindade voltaria a existir e ela teria a forma de um Homem. Por isso, para o maniqueísmo, o Homem primordial era o próprio Deus:

    “Antes de tudo, convém sublinhar que o Homem primitivo é apenas uma hipóstase do Pai da Grandeza, o próprio Deus (…). O Homem primitivo é portanto idêntico a esta Alma (de Deus) ou, como diz o maniqueu Faustus a S. Agostinho, ele é feito “da substância de Deus, sendo isto mesmo que é Deus” (H. C. Puech, Le manicheisme, in Histoire Générale des Religions, vol. III, p. 96).

    Na India, o deus Supremo , Brahman, era chamado de Homem (Puruska).

    “Tu és o imperecível supremo que é preciso conhecer. Tu és o supremo apoio de todo o universo, tu és o eterno guardião da lei antiga, para mim, penso, tu és o sempiterno Homem (Bhagavad Gita X, 12).

    “Tu conheces a ti mesmo, por ti mesmo, ó Homem supremo, fonte dos seres, Senhor das criaturas, Deus dos deuses, Regedor do mundo (Bhagavad Gita X, 15).

    “Tu és o deus principal. ó Homem antigo (…) tu permeias o Universo, ó forma infinita (Bhagavad Gita, XI, 38).

    A Cabala, por sua vez, identifica o Deus manifestado nos sefirots como sendo o Homem Primordial, o Adam Kadmon. Para provar isto, um dos argumentos usados é que, segundo o método da guematria, as letras que formam o nome de Deus – iod, he, vau, he (IHWH) – tem valor numérico de 45. Ora, as letras que formam a palavra Adam (alef, dalet, mem) dão um total de 45 também. Logo (??), Adão é igual a Deus pois ambos valem 45 (cfr. G. G. Scholem, A cabala e seu simbolismo, p. 125).

    O misterioso livro gnóstico judaico, o Schiur Komá, descreve o corpo de Deus como sendo o de um imenso homem que se identifica também com o Universo. Assim Deus, Universo e Homem seriam uma coisa só (Cfr. G. G. Scholem, Major trends in jewish mysticism – tradução portuguesa A mística judaica, Perspectiva, São Paulo, 1972, pp. 64-65).

    Portanto, a mesma divindade que textos de religiões e autores gnósticos chamam de Nada, intitulam também Homem.

    Vimos já que Deus, em Isaías, exprobou os seguidores da mentira que “confiam no nada” (Isaias LIX, 3-4). Esse mesmo profeta clama a palavra de Deus contra os judeus:

    “Cessai, pois, de confiar no homem, em cujas narinas (não) há (senão) um sopro, porque somente Deus é o que é excelso” (Isaias II, 22).

    Não se diga que há nesse texto apenas e tão somente um conselho de ordem moral. Esse versículo é a conclusão de um texto acerca das causas de humilhação dos maus no dia do juízo, no qual Deus repreende a casa de Jacó – o povo judeu – por estar cheio de superstições como os filisteus (v. 6); de ter enchido o país de ídolos que serão esmigalhados no dia do juízo (v. 10-18) e que então os que traíram Deus lançarão fora os seus ídolos (v. 21).

    O versículo citado opõe a confiança no homem à confiança em Deus excelso. Ele associa idolatria e confiança no Homem. Deus, por Isaías, clama então contra os que “confiam no Nada” e contra os que confiam no Homem, exatamente no Nada e no Homem, que Gnose e Cabala afirmam ser nomes de Deus.

    Para a Gnose, a evolução divina se faz por um processo dialético, visto que Deus e todo ser são formados por dois princípios contrários e iguais.

    Para Heráclito, “Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, abundância e fome” (Diels. 12 B, 67).

    “Vida e morte, vigília e sono, juventude e velhice são a mesma coisa: são muitas metamorfoses” (Diels. 12B, 88).

    Vimos que para o Bhagavad Gita Deus é “ser e não ser”, ao mesmo tempo (Bhagavad Gita XII, 37; IX, 19).

    Sabe-se bem que no maniqueísmo, o dualismo de Deus e o dualismo metafísico são claramente ensinados (cfr. H.C. Puech, Le Manicheisme, in Histoire Générale de Religions, vol. III, p. 96, 1ª coluna).

    Como a Gnose, a Cabala afirma que em Deus há dois princípios opostos: o do bem e o do mal (cfr. G.G. Scholem, A mística judaica, ed. cit., pp. 237-291). “Tudo o que é demoníaco tem sua raiz em alguma parte do mistério de Deus” (G.G. Scholem, A mística judaica, p. 240). Essa noção dualista de Deus foi explicitada mais claramente pelo sistema cabalista de Isaac Luria de Safed e por Natham de Gaza (cfr. G.G. Scholem,Sabbatai Sevi, The mystical Messiah, pp. 301-302, Princeton University Press, Princeton, New Jersey, 1975).

    Em conseqüência decorrem daí não só um dualismo metafísico, que afirma a igualdade de contrários, como também um dualismo dialético no campo da moral, que faz identificar santidade e iniqüidade, virtude e pecado. A Mischnah (Berahot IX, 5) afirma que se deve amar a Deus de todo o coração, isto é, com os bons e maus impulsos.

    ” Man is bouns to bless (God) for the evil even as he blesses (God) for the good, for it is written. And thou shalt love the Lord thy God with all thy heart and with all thy soul, and with all thy might. (Deut. VI, 5). With all thy heart (lebab) – with both thine impulses, thy good impulses and thine evil impulses .” (The Mischnah, Oxford University Press, Oxford, 1980, 1ª ed., 1933, trad. Herbert Dowley).

    O dualismo metafísico e a moral dialética próprios da Gnose e da Cabala fazem identificar ser e não ser, bem e mal, luz e trevas, verdade e mentira, virtude e pecado. Ora, a prova de que já no Antigo Testamento essa dialética dualista gnóstica se infiltrara secretamente entre os judeus está em Isaías, onde o Deus que exprobou a adesão dos escribas e sacerdotes à mentira, diz:

    “Ai de vós que ao mal chamais bem, e ao bem mal, que tomais as trevas por luz e a luz por trevas, que tendes o amargo por doce e o doce por amargo.” (Is. V, 20).

    Essa inversão completa de verdade e de moral perpetuou-se secretamente entre os judeus até o tempo de Cristo e depois no Talmud, que afirma “que o mais perfeito cumprimento da lei está na sua violação”.

    Segundo o messianismo cabalista, o reino do Messias trará a abolição da lei e mesmo a sua inversão, tornando lícito o que era proibido (cfr. G.G. Scholem, A mística judaica, p. 181 e p. 314).

    Na era messiânica haveria “the abolition of the norm of permitted and forbidden pure and impure” (G.G. Scholem, Sabbatai Sevi, The Mystical Messiah, p. 321). Se havia uma conspiração de fundo gnóstico já no Antigo Testamento, fica claro porque Nosso Senhor Jesus Cristo preveniu os fariseus dizendo-lhes: “Não julgueis que vim destruir a lei ou os profetas, mas sim (para os) cumprir. Porque em verdade vos digo que, enquanto não passar o céu e a terra, não desaparecerá da lei um só jota ou um só ápice, sem que tudo seja

    cumprido” (Mt. V, 17-18). E ele condena a seguir aqueles que violam mesmo um dos mínimos mandamentos da lei e “ensinam assim os homens” (Mt. V, 19).

    Finalmente, Cristo afirma que os fariseus, por causa de sua tradição, anularam a lei: “Vós, por causa de vossa tradição, tornastes nulo o mandamento de Deus” (Mt. XV). “É em vão que me honram, ensinando doutrinas e mandamentos de homens” (Mt. XV, 9).

    Ora, a Cabala judaica pretendia ser uma doutrina revelada por Deus a Moisés e transmitida por tradição oral, tanto que Cabala quer dizer tradição. Não se estranhe então a afirmação de que já no Antigo Testamento, os rabinos judeus haviam abandonado a Verdade revelada para seguir a mentira da Gnose (que entre os judeus se chama Cabala). Os textos da Escritura que citamos indicam isso. Mas, para os que confiam no Homem, veja-se a confirmação do que dizemos na palavra de um homem que é o maior conhecedor de Cabala em nosso dias:

    “Sabemos que já no período do Segundo Templo uma doutrina esotérica era ensinada em círculos farisaicos.” (G.G. Scholem, A mística judaica, p. 41).

    Por tudo isso, fica bem claro que os judeus se desviaram de sua missão e abandonaram a Revelação e a Lei de Deus devido a uma conspiração diabólica dirigida pelos sacerdotes e escribas.

    Resta perguntar: terá essa conspiração diabólica, visando perder as almas, cessado com o advento de Cristo? Ou terá ela se tornado mais oculta ainda, mais feroz e mais diabolicamente hipócrita?

    Os que negam a existência da “conspiração” dos maus na História, ou são ingênuos, ou… são membros dela.

    Fonte: www.montfort.org.br

  • A visão não-católica que atingiu parte do clero

    Quando o homem peca, todo o cosmo sofre com isso”
    Santa Hildegarda de Bingen, Doutora da Igreja Católica

    Um artigo [1] com a opinião do presidente da comissão para doutrina da fé da CNBB tem a pretensão de esclarecer a abordagem dos católicos sobre a pandemia, mas na entrevista acaba revelando o pensamento nada cristão que tem tomando parte do clero. Veja um trecho da entrevista ao comentar se a vinda do vírus covid-19 é castigo ou permissão de Deus:

    “Deus permite as consequências das ações do próprio homem que hoje por exemplo está de certa forma destruindo a natureza, a terra, nossa casa comum.”

    Se tem medo de pregar a visão cristã básica: Deus, homem e pecado, que acaba de ser substituída pela visão pagã: Deus, homem e terra(gaia). No tal mal feito à mãe-terra, esta teria alguma autonomia para repreender o homem porque ele cortou algumas árvores em algum lugar do mundo. O homem não mais desagrada a Deus por meio do pecado e do afastamento dEle, mas quando o homem destrói a natureza, e esse conceito de destruir a natureza já é algo altamente subjetivo e nunca se chega ao concenso por envolver casos muito específicos. Se teologos modernistas da época de Karl Rahner estavam reclamando que não havia uma fronteira clara para dizer que há ou não pecado – minimizando assim o pecado -, imagina com esse novo conceito de pecado ecológico.

    Em outra pergunta o entrevistado fala que se salva se o pecador reconhecer o seu pecado, mas que pecado? O contra a mãe-terra (gaia)? O artigo pode ter sido uma reação por colocarem o vírus como um castigo divino, mas a diferença aí é apenas de terminologia. Um castigo acontece por repreensão a alguma má ação do homem. Deus permite que aconteça por causa da má ação do homem – seja o pecado mesmo ou a mãe-terra -, dá no mesmo. Se Deus tudo controla, usar a palavra Deus “permite” é mais suave do que “castigo”, porque “permitir” mostra que Deus e o ser humano estavam incomodados e segurando as consequências da maldade para que não caísse sobre os homens Deus acaba permitindo que caia o mal. Uma palavra como essa “permitir” pode dar até mais esperança de que Deus está próximo da situação, é um efeito psicológico, mas pode ter um efeito positivo para evitar que alguém caia em desesperança. Pode ser que o tal clero entrevistado acredite que é pecado a transgressão aos dez mandamentos, mas ao repetir muitos termos usados hoje que levam à confusão, ele acaba colaborando para a visão de mundo pagã que distorce toda a fé cristã.

    [1] http://www.cnbb.org.br/na-ultima-sexta-feira-27-de-marco-pela-primeira-vez-o-mundo-se-uniu-em-oracao-ao-papa-francisco-para-acompanhar-direto-da-praca-sao-pedro-vazia-a-bencao-extraordinaria-urbi-et-orbi-que-geralment