O documento publicado pelo Vaticano a respeito do terceiro segredo de Fátima

O documento publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé, assinado pelo Cardeal Ratzinger, faz questão de deixar bem claro que o famoso e desconhecido terceiro "segredo" de Fátima é autêntico e completo. Disso, Ratzinger procura dar várias provas, das quais a mais importante é a cópia fotostática das páginas em que Irmã Lúcia escreveu o segredo em 3 de janeiro de 1944, em Tuy.

Infelizmente, porém - o que é pena - falta o mais essencial: a foto da página final com a assinatura de Irmã Lúcia. O documento publicado - muito estranhamente - não contém a assinatura da vidente. E esta era a garantia mais fundamental e absolutamente necessária.

Por que falta a assinatura de Irmã Lúcia? Haveria ainda uma página final com a assinatura dela? Por que, no documento publicado, não há nenhum selo, registro, ou garantia de seu arquivamento, no Vaticano?

O documento se encerra após a narração da visão, quando se esperava a explicação dela por Nossa Senhora, com uma data: Tuy, 3-1-1944. Num fim de página. Apertadamente. E sem assinatura! E isto é sobremaneira estranho.

Essa falta inexplicável e inexplicada da assinatura da vidente viva se torna ainda mais intrigante pelo fato de que a data da redação aparece num fim de linha, e num fim de página, como que enfiada de modo estranho. Pareceria que Irmã Lúcia quis aproveitar o fim da página, escrevendo duas linhas na margem inferior da página, e, por fim, enfiando a data da redação, sem deixar espaço para a assinatura.

A estranheza cresce ainda mais devido à extrema preocupação do Vaticano em dar garantias de que o texto publicado é o original. E é o texto integral. Alguém havia suspeitado de que seria possível uma deturpação ou a exclusão de alguma parte mais comprometedora?... Há sempre, no mundo, pessoas que desconfiam de tudo. Por exemplo, na Itália, um caricaturista, devido à demora em sair o documento anunciado para o começo de junho de 2000, fez uma caricatura, na qual alguém perguntava ao Papa: "Então, afinal, quando sai o terceiro segredo de Fátima?" Ao que João Paulo II respondia: "Logo que secar o pincel do 'branquinho'..." (Corriere della Sera). O que foi um tanto irreverente.

Para eliminar qualquer suspeita de fraude, o documento publicado pelo Vaticano sobre o terceiro "segredo" cita a palavra de Irmã Lúcia, confirmando que reconhece a carta do "segredo" como sendo a sua carta, e com a "sua letra": "Então, o senhor D. Tarcísio Bertone apresenta-lhe dois envelopes: um exterior que tinha dentro outro com a carta onde estava a terceira parte do 'segredo' de Fátima. Tocando esta segunda com os dedos, logo exclamou: 'É a minha carta', e depois de a ler acrescentou: 'É a minha letra'."

O Vaticano, para que não houvesse dúvida alguma sobre a autenticidade de sua interpretação e do documento publicado, chega a dar até a cor do envelope em que foi guardado o segredo, na ocasião em que ele foi entregue a João Paulo II: "...dois envelopes: um branco, com o texto original da Irmã Lúcia em língua portuguesa; outro cor de laranja, com a tradução do 'segredo' em língua italiana." Para que tantos cuidados, se no final do documento faltou a assinatura da vidente?

Ademais, segundo o documento de Ratzinger, o terceiro "segredo" viria depois das frases: " Por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre me consagrará a Rússia que se converterá, e será dado ao mundo algum tempo de paz. Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé etc. " E por que esse misterioso "etc"? Seria o "etc" o terceiro segredo? Ora, o texto do terceiro "segredo" - tal qual foi publicado - não se harmoniza com estas frases que deveriam imediatamente precedê-lo.

Também não fica muito clara a relação lógica - ou teológica - da visão das mortes narradas no "segredo" com as frases: " Será dado ao mundo algum tempo de paz" e "Por fim meu Imaculado Coração triunfará ". Essas frases pressupõem uma enorme derrota anterior. Dessa derrota nada se diz.

Por que, depois de anunciar um triunfo, se mostra uma visão de uma cidade meio em ruínas, um Papa assassinado a tiros e setas, seguido de um massacre de Bispos, religiosos e leigos? Como houve um triunfo antes de uma massacre como esse? Como pode haver tal massacre depois de um triunfo e concedida a paz? Paz com massacre? Qual a causa de tantos males, depois do triunfo do Imaculado Coração ter trazido paz ao mundo e à Igreja? Como haverá um massacre depois da consagração da Rússia? Isso não é lógico. Há alguma confusão nesses textos ou nessas versões. Ou a ordem das frases foi trocada, ou falta algo. Por que o massacre? Não fica clara a relação da visão, tal qual foi publicada, com a afirmação de que "em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé, etc." Então o dogma da Fé não se manteria em outros países? Por que o "segredo" - revelado agora - nada diz da perda da Fé em lugar algum?

Convém lembrar que a pequena Jacinta teve um visão na qual via um Papa rezando num palácio, que estava sendo atacado por uma multidão, que atirava pedras no Papa rezando.

Ela disse ainda: "Não vês tantas estradas, tantos caminhos e campos cheios de gente morta a escorrer sangue? Tanta gente a chorar com fome, e não tem nada para comer?! E o Santo Padre a rezar?! E tanta gente a rezar com ele?!" "Posso dizer que vi o Santo Padre e toda aquela gente?" " Não. Não vês que isso faz parte do segredo?! Que por aí logo se descobria?! " (Pe. Antonio Maria Martins, S. J., Novos Documentos de Fátima , Ed. Loyola, São Paulo, sem data, p. 271). Essa frase é confirmada pelo livro de Walsh sobre Fátima: "Não - respondeu Lúcia - Não vês que isso faz parte do segredo?" (William Thomas Walsh, Nossa Senhora de Fátima, Quadrante, São Paulo, 1996, p. 110. O negrito é nosso).

Portanto, havia um Papa que ia ser apedrejado, e isso fazia parte do segredo . E isso não aparece na versão agora publicada pelo Vaticano. Por quê? E isso também ainda não aconteceu! E será que o Papa que reza e é apedrejado é o mesmo Papa que caminha trêmulo e vacilante entre mortos e feridos numa cidade semi-arruinada? Parece que não, pois quem reza, chora, mas não treme nem vacila. Parece, pois, que são dois Papas distintos: um que reza e é odiado, e outro que treme e vacila.

Repetimos: como é que na versão publicada agora, nada do que viu a Jacinta - e que Irmã Lúcia disse que fazia parte do segredo - aparece?

Teria faltado um pedaço do segredo na versão agora finalmente publicada pelo Vaticano? E ainda que a visão de Jacinta fosse um outro símbolo da mesma visão do terceiro segredo, por que ela foi cortada? Se este detalhe não fazia parte da visão, como é que a Lúcia diz que fazia parte do segredo? E por que, e como, contando esse detalhe, "por aí logo se descobria" o segredo? E como é que, agora, mesmo conhecendo o que o Vaticano diz ser a íntegra do "segredo", nada se descobre, nem se vê claramente como "por aí" - pelo que viu a Jacinta - se descobre absolutamente o segredo?

Hoje, conhecemos o "segredo". Só que ele - diz Ratzinger - é um enigma indecifrável, e, para o Cardeal, "o véu do futuro não foi rasgado". Teria sido, então, inútil a revelação de Fátima? Não pode ser. Daí nossa perplexidade.

Por tudo isso, fica-se a indagar se não faltou alguma página final do terceiro segredo, possivelmente contendo outros dados, e a explicação de Nossa Senhora sobre a visão tão misteriosa. Pois, se Nossa Senhora explicou aos videntes até o óbvio significado da visão do inferno, por que deixaria sem explicação a última tão estranha visão?

O comentário teológico da visão feito por Ratzinger

Depois de uma introdução em que o Cardeal Ratzinger afirma que o terceiro "segredo" não revelou o futuro - "o véu do futuro não foi rasgado", diz o Cardeal - ele faz uma longa dissertação sobre revelação pública e revelação privada. E, no final, mostra que "...tais visões, que, na sua maioria, só podem ser decifradas a posteriori". Ora, segundo as autoridades vaticanas, os fatos preditos em Fátima já ocorreram, e, por isso, se torna possível a publicação do "segredo". E comenta o mesmo Cardeal Ratzinger: "Em primeiro lugar devemos supor, como afirma o Cardeal Sodano, que os acontecimentos a que faz referência a terceira parte do "segredo" de Fátima [as aspas agora são do Cardeal Sodano] parecem pertencer ao passado" (O negrito é nosso).

Já o Cardeal Ratzinger afirma aparentemente com mais segurança e certeza que "Os diversos acontecimentos, na medida em que lá são representados, pertencem já ao passado". Portanto, a profecia teria ficado facilmente compreensível. Apesar disto, declara Ratzinger que ela tem "uma linguagem simbólica de difícil decifração". E Ratzinger fez então uma "tentativa de interpretação" histórica do "segredo" de Fátima, particularmente no caso da morte a "tiros e setas" de um Papa, que se pretende identificar com o misterioso "Bispo vestido de branco". E essa tentativa de interpretação feita por Ratzinger - com o devido respeito a sua autoridade e à sua pessoa - nos parece particularmente absurda.

Resumamos o que foi dito.

Disseram o Cardeal Sodano e o Cardeal Ratzinger que o Papa que morre a tiros e setas, segundo o texto do terceiro "segredo", é João Paulo II, por ter escapado do atentado de Agca. Mas João Paulo II continua vivo!!! Como poderia ser ele, então, por ter escapado vivo do atentado de Agca, o Bispo vestido de branco, que morre a tiros e a setas na visão das crianças de Fátima??? Pois isto é que é o mais incrível: se pretende afirmar que o "Bispo vestido de branco" seria o mesmo Papa que morre, na visão dos pastores, e este Papa seria João Paulo II, que se mantém vivo! E Ratzinger e Sodano afirmam que isto já aconteceu!? E, segundo eles, a cena da visão do terceiro segredo seria o atentado de Agca na Praça de São Pedro! Parece que se está delirando! E esta "tentativa de interpretação" do Cardeal Ratzinger foi feita para confirmar o que julgou o próprio João Paulo II, que se considerou - não se sabe por que, nem como - o Papa que é morto na visão publicada, e isso por ter escapado vivo do atentado a tiros na Praça de São Pedro!!! (???)

E mais um outro absurdo: procura-se dar a entender que a própria Irmã Lúcia teria concordado com essa interpretação estapafúrdia. É o que insinua o texto de Monsenhor Tarcísio Bertone, quando narra sua entrevista com a Irmã Lúcia: "Quanto à passagem relativa ao Bispo vestido de branco, isto é, ao Santo Padre - como logo perceberam os pastorinhos durante a 'visão' - que é ferido de morte e cai por terra, a Irmã Lúcia concorda plenamente com a afirmação do Papa: 'Foi uma mão materna que guiou a trajetória da bala, e o Santo Padre agonizante deteve-se no limiar da morte' ." (João Paulo II, Meditação com os Bispos italianos, a partir da Policlínica Gemelli , 13 de maio de 1994. O negrito é nosso).

Ora, com essas palavras a Irmã Lúcia não "concordou plenamente" com a interpretação de que o Bispo vestido de branco que morre a tiros e setas é João Paulo II. Ela concordou plenamente só com a afirmação de que a trajetória da bala de Agca foi guiada por mão materna. E, em que pesem a autoridade do Papa e desses Cardeais, a Irmã Lúcia não podia concordar com a interpretação que o Vaticano deu da morte do Papa na visão, visto que nada havia na visão que pudesse se aplicar ao caso Agca-João Paulo II.

Senão, vejamos:

1. No "segredo", o "Bispo vestido de branco" morre. No atentado de Agca, João Paulo II não morreu. João Paulo II continua vivo . Como então se pode aplicar a profecia da morte do "Bispo vestido de branco" a ele?

2. No "segredo" várias pessoas são mortas junto com o Papa. No atentado da Praça de São Pedro, ninguém mais morreu, e nem sequer foi ferido.

3. No "segredo", o misterioso Bispo "vestido de branco" é morto por soldados a tiros e setas. No atentado de Agca, não houve soldado nenhum atirando no Papa, e nem se usaram setas.

4. No "segredo", tal qual foi publicado, se diz que o Papa morre numa cidade em ruínas. Ora, o atentado de Agca foi numa cidade rica, cujas únicas ruínas são as do Fórum Romano, e as morais. Que são imensas. Que são imensas...

Ratzinger nos responderia dizendo que o terceiro "segredo" de Fátima era condicional. Os fatos que nele se anunciam estavam condicionados à conversão ou não dos homens. Que, por isso, eles não devem ser tidos como fatos destinados a ocorrer. E que, portanto, se João Paulo II não morreu, mas apenas foi gravemente ferido graças à proteção da Virgem Maria, é porque os homens já se emendaram...

Pena que ninguém tenha notado ainda essa conversão... Ó cegueira da humanidade, que nem percebe que a humanidade se converteu! Como ninguém vê que a virtude reina no mundo, e que o "Imaculado Coração de Maria triunfou"? (Exceto em certas pessoas originárias de "ambiente cultural anglo-saxônico, ou germânico", que, lembra Ratzinger, têm certa dificuldade para entender que essa devoção é o grande meio de salvação para os homens de nosso tempo).

Evidentemente, cegueira é ver o mundo atual convertido. Visão estranhamente contorcida é ver no Papa João Paulo II - que está vivo - o Papa que é morto a tiros e setas no "segredo" de Fátima. Portanto, a interpretação da profecia do terceiro "segredo" de Fátima feita pelo Papa e pelos Cardeais Sodano e Ratzinger, é espantosamente divergente e contrastante com o próprio texto publicado.

Evidentemente, não se titubeou em forçar uma interpretação que não se encaixa, de modo algum, nem mesmo com o "segredo" publicado. Por quê? Por que essa incrível "tentativa" de convencer a opinião pública com uma interpretação estapafúrdia do terceiro segredo, como se ninguém fosse capaz de pensar e de analisar?

E, se havia tanta certeza de que o "segredo" de Fátima previra o atentado de Agca, por que não o publicaram no dia seguinte ao atentado? Profecia ocorrida é de fácil interpretação... Por que esperaram 19 anos para descobrir que o "segredo" de Fátima falava de João Paulo II e do caso Agca? E por que guardaram esse "segredo" desde 1917? Que perigo havia em sua publicação? Por que os sete selos fechando um segredo já realizado? Tudo isso é incompreensível.

Uma outra hipótese é que a visão agora publicada se insere antes do anúncio do triunfo e da paz prometida após a consagração da Rússia. A qual, aliás, não foi feita nos termos em que Nossa Senhora pediu: pelo Papa junto com todos os Bispos do mundo, consagrando a Rússia e não o mundo. Nisto também o texto do Vaticano foge da realidade, ao querer convencer que a consagração do mundo já inclui a Rússia. Não foi assim que Nossa Senhora pediu. Não adianta o Papa consagrar a Via Láctea, porque nela está incluída a Terra e a Rússia. A Mãe de Deus pediu para consagrar a Rússia, nominalmente. Por que custa tanto fazer o que Ela pediu, como Ela o pediu? Que razões teológicas - e políticas - impedem fazer o que Ela pediu, como Ela o pediu?

Fonte: Fedeli , Orlando - " Fátima: um "segredo" contendo um enigma envolto em um mistério "
MONTFORT Associação Cultural


Data: 12/03/2011

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