Desmentindo o mito de que Jesus seria um mito

Em 1912 Rudolf Bultmann, exegeta alemão, tentou enfrentar um problema existente entre os protestantes, em sua época: o racionalismo, que eliminava dos Evangelhos qualquer coisa que a razão não conseguisse explicar.

Assim, adotou o pensamento existencialista de Martin Heidegger, usando o conceito luterano de fé (renunciava a razão para crer), elaborando a seguinte teoria:

1) Não se estuda história como se estuda ciências naturais. A primeira nos interpela, tem seu caráter subjetivo.

2) Para ele, as páginas dos Evangelhos são históricas, mas narram a ação de Deus envolvida na subjetividade dos narradores.

3) Só as primeiras gerações entenderiam, saberiam o que Cristo disse e fez. Para os atuais pesquisadores, existe uma barreira intransponível entre as primeiras gerações e os autores do Novo Testamento.

4) Os antigos cristãos usavam uma linguagem mítica, logo, é mito toda concepção que apresenta o divino como humano, pois é contrário a leis e ao determinismo de causas e efeitos.

5) Ou seja, o crente atual deve de-mitizar esta linguagem contida no Novo Testamento.

De-mitizar seria deduzir das representações míticas (que aparentemente parecem ser históricas e objetivas) do Evangelho, uma mensagem existencial. As imagens míticas, como a encarnação do Filho, ressurreição, morte expiatória e ascensão, têm APENAS a função de carregar e transmitir a mensagem EXISTENCIAL dos Evangelhos, que seria passar da vida não-autêntica (do pecado) para a autêntica (vida de fé).

Esta existência só se faz possível mediante o acontecimento "Cristo", que é a ação de Deus revelando ao homem seu amor.

Em suma, Cristo não era Filho de Deus, por exemplo, não ressuscitou dos mortos... tudo é linguagem mítica, que deve ser interpretada e traduzida em uma MENSAGEM EXISTENCIAL: trata-se da ação de Deus revelando ao homem seu amor.

Trata-se, logo, de um verdadeiro absurdo. Primeiro, Bultmann faz oposição entre fé e razão . Acontece que a fé cristã supõe os fundamentos da razão. Se o ato de fé fosse cego, não faria uso de ciências da antigüidade, por exemplo, como a Arqueologia, a Paleontologia etc. O conhecer pelos sentidos e pela razão é anterior ao querer e à confiança que alguém possa conceber.

Os apóstolos, aliás, se interessam em conservar a verdade recebida OBJETIVAMENTE, sem MITOS. Leia atentamente 1Tm 1,3s; 1Tm 4,7; 2Tm 4,4; Tt 1,14; 2 Pd 1,16 etc. Onde se lê fábulas, temos a expressão originária mythois, a mesma de "mito". Logo, existiam mitos naquele tempo, que os apóstolos faziam questão de distingüir da Palavra (lógos) da Salvação.

O irracionalismo traz emoção exagerada e violência, o existencialismo subjetivo ("cada um na sua") também. Logo, o cristianismo não é irracional e a fé não pode ser cega. Deus é transcendente, ultrapassa os limites da razão humana, mas podemos aplicá-la a Deus sem cometer erros. Por exemplo: Deus é amor, mas não é amor limitado como o homem é.

Outro dado importante: o Cristianismo é uma religião histórica, à diferença do budismo ou de uma filosofia religiosa. A linguagem da fé é objetiva e atingir a VERDADE através da historiografia e da exegesa bíblica é meta a ser almejada e conseguida.

Transformar em mito a realidade histórica dos Evangelhos é a mesma coisa que transformar a teologia em antropologia, ou em uma espécie de "teologia antropocêntrica", onde Deus está a serviço do homem. A teologia não é uma introspecção psicológica.

A pregação é o anúncio de fatos históricos. Não se tratam de mitos, mas fatos! Se negamos os fatos, destruímos a pregação.

Vários foram os erros de Bultmann. Inclusive o de achar que a mentalidade antiga era imaginosa ou infantil, a ponto de só escrever MITOS, não FATOS!?! Também o homem moderno tem seus mitos, que correspondem à estrutura do psiquismo humano. Antigüidade e atualidade não devem ser assim considerados.

O próprio Bultmann reconhece que a sua teoria (DE(S)MITIZAÇÃO) encontra obstáculo FATAL por parte do texto de São Paulo, em 1 Cor 15,3-8:

"3. Eu vos transmiti primeiramente o que eu mesmo havia recebido: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras;

4. foi sepultado, e ressurgiu ao terceiro dia, segundo as Escrituras;

5. apareceu a Cefas, e em seguida aos Doze.

6. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive (e alguns já são mortos);

7. depois apareceu a Tiago, em seguida a todos os apóstolos.

8. E, por último de todos, apareceu também a mim, como a um abortivo."

Estes dizeres são do sexto decênio do século I (56/57), pouco mais de vinte anos apenas os separam da Ascensão de Jesus (o que Bultmann não põe em dúvida (?!?)). Paulo recebeu estes ensinamentos por ocasião de sua conversão, em 35, ou em 38, quando visitou Jerusalém, ou mais tardar, por volta do ano 40.

Estas frases são curtas, incisivas, dispostas segundo um paralelismo que lhes comunica um ritmo notável. Abstração feita dos vv.6 e 8, dir-se-ia que se trata de fórmulas estereotípicas, forjadas pelo ensinamento oral e destinadas a ser freqüentemente repetidas. Várias expressões aqui não são usadas em outros textos paulinos, como "conforme as Escrituras","no terceiro dia", "aos doze"; o que leva a crer que se trata de uma repetição.

Ou seja, São Paulo reproduz uma fórmula de fé que ele mesmo recebeu já definitivamente redigida poucos anos (dois, cinco?) após a Ascensão de Jesus. O v.6 pode ter sido introduzido depois, pois quebra o ritmo e o v.8 foi um acréscimo pessoal de São Paulo.

Esta fórmula professa a ressurreição corpórea de Cristo como realidade histórica. Até existem testemunhas oculares! Logo, esta fé vem de um fato histórico e não foi produzida tardiamente, na história das primeiras comunidades, como MITO...

Bultmann reconhece a força deste texto, dizendo apenas que Paulo foi contraditório, sem criar argumentos no mínimo decentes para reforçar sua DE(S)MITIZAÇÃO...

Resumindo, Rudolf demonstra uma teoria parcial e inspirada por preconceitos.

Fonte de Pesquisa: Curso de Cristologia, D. Estevão Tavares Bettencourt, Escola Mater Ecclesiae.
Fonte: Revista Católica



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