Jesus histórico é diferente do Jesus da fé?

John Meier é sacerdote católico, professor da cadeira de Novo Testamento na Universidade Católica da América em Washington, D.C. Escreveu "Um Judeu Marginal. Repensando o Jesus Histórico". Trata-se de um ensaio cristológico onde John pretende estudar os Evangelhos, abstraindo dos critérios da fé, a fim de tentar depreender o que um judeu, um agnóstico e um cristão concluiriam em consenso unânime se estudassem os Evangelhos conjuntamente.

O autor tenta distingüir o Jesus real do Jesus da história. Para ele, os Evangelhos terão sido acrescidos de concepções da Igreja Nascente, que ornamentaram a figura real de Jesus. Para realizar este estudo, o autor estipula certos critérios (aceitos e reconhecidos por outros pesquisadores) que poderemos aqui citar alguns:

1) Critério da descontinuidade: Afirma serem autênticos os atos e dizeres de Jesus que não podem ser originários do judaísmo de seu tempo nem da Igreja Primitiva, como a proibição do divórcio e a recusa do juramento;

2) Critério da Múltipla Confirmação: Seriam autênticos os atos e dizeres de Jesus atestados em mais de uma fonte independente. O "reino de Deus" foi proclamado, por exemplo, em Mc, Jo, Lc, Mt e por Paulo. As curas praticadas por Jesus, a especial atenção aos proscritos da sociedade, como os pecadores e os coletores de impostos; a recomendação do perdão em número indefinido de vezes, a nova compreensão do preceito do Sábado,a ética radical de abandonar tudo para seguir Jesus; a proibição do divórcio, a Eucaristia, as alterações com os fariseus, etc;

3) Critério da rejeição: Seriam autênticos os atos e dizeres de Jesus que resultaram no fim violento nas mãos de autoridades judias e romanas. Como Jesus foi preso gratuitamente? Logo, sua afirmação de que era Filho de Deus, Deus-homem, pode ser considerado, por este critério, dito verdadeiro;

4) Critério dos traços de aramaico: Seriam autênticos os atos e dizeres de Jesus que, na versão grega das palavras de Cristo, aparecessem com traços de vocabulário, sintaxe, ritmo e rima aramaicos. Este critério se apóia em dados filológicos elaborados por especialistas em aramaico, como Joachim Jeremias e Geza Vermes;

5) Princípio da razão suficiente: Afirma que o fato histórico "Jesus e suas conseqüências através dos séculos" não se explica se não se admite em Cristo uma grandeza de personalidade, manifestada em palavras e ações marcantes ou mesmo extraordinárias. Tudo que é belo e impressionante a respeito de Jesus, narrado nos Evangelhos, não deve ser descartado facilmente, pois se isto acontecesse teríamos um Jesus pobre e limitado, o que descartaria o fenômeno CRISTIANISMO através dos séculos. A própria Filosofia assim exige.

Estes e outros critérios ou princípios estipulados por Meier (critérios usados até por outros pesquisadores) levam a atribuir alto grau de credibilidade aos Evangelhos. Aliás, tais critérios englobam várias facetas e se completam mutuamente.

O livro de Meier está repleto de hipóteses, proposições condicionais, sentenças vagamente afirmativas e negativas que deixam o leitor perplexo. Meier cita um grande número de autores que desenvolveram(como Ele)a crítica dos Evangelhos, ora num terreno tão complexo e, ao mesmo tempo, tão desprovido de documentos, que compreende-se que haja "tantas sentenças quanto cabeças" para cada ponto investigado na obra .Segundo D.Estevão, para "cada sim e cada não há um mas", que faz o leitor sempre ficar na estaca zero.

Contudo, enunciaremos alguns exemplos de tal procedimento, elencados no livro de D. Estevão, para que você possa entender a dinâmica da obra de Meier.

1) O nascimento de Jesus em Belém: O autor conclui que Jesus pode ter nascido em Belém da Judéia ou em Nazaré da Galiléia... Enfim, foi em uma pequena cidade em algum ponto dentro dos limites do reino de Herodes.

2) O nascimento virginal de Jesus: No Talmud judaico do séc. I d.C. os rabinos teriam usado expressões distorcidas para justamente zombar da virgindade de Maria. Ou seja, tal verdade estava presente nos acontecimentos descritos nos Evangelhos. Logo, este "nascimento virginal" não foi invenção posterior das primeiras comunidades católicas.

3) Os irmãos de Jesus: Não existe certeza absoluta de que Jesus não teve irmãos, mas a idéia de que os irmãos de Cristo sejam parentes ou familiares no sentido mais amplo é muito forte.

4) A infância de Jesus: As divergências entre Mt 1-2 e Lc1-2 são aparentes, e não reais. As concordâncias são consideradas por todos como históricas.

5) Jesus foi casado?: Não existe certeza absoluta, mas todos os contextos, próximos e remotos, levam à conclusão de que Jesus se manteve celibatário. O total silêncio sobre esposa e filhos, por exemplo, pode muito indicar que Ele nunca se casou.

6) Jesus dos doze aos trinta anos: Passou quase totalmente estes anos como cidadão de Nazaré, como marceneiro. Meier até acrescenta que Jesus se exprimia em grego, para fins profissionais, incluindo o diálogo com Pilatos, durante o julgamento.

Na verdade, basta analisar passagens como At 1,21s; 2,32; 3,15;4,33;5,31s;10,39-42; Gl 1,8s... e concluir que os apóstolos e pregadores faziam questão de ser meras testemunhas respeitosas do que haviam visto e ouvido, tanto que tudo aquilo que não corresponde à história, virou "literatura apócrifa". Resumindo : os Evangelhos são históricos, não foram moldados ou distorcidos pelas primeiras comunidades. Não é necessário estudo tão descabido e vagamente concebido como este de J.Meier. Os apóstolos estavam tão convictos de que diziam a verdade, que até desafiavam o tribunal dos judeus (At 4,19s). Os apóstolos vigiaram o "desabochar" das palavras de Jesus, evitando docetismo, dualismo, etc.

Até Gamaliel nada pode apontar de enganoso na pregação dos apóstolos, quando concluiu: At 5,38s.

Como bem concluiu D. Estevão, o "Evangelho escrito é a cristalização da pregação dos Apóstolos", só pode ser corretamente entendido com o auxílio da Tradição Oral. Se não for feito desta forma, cai-se em hipóteses que vão de um extremo ao outro das possíveis interpretações, incorrendo em contradições alarmantes, como se percebe no livro de J.Meier.

Em Jo 20,30s e Jo 21,24s observamos que muitos dizeres de Jesus não foram escritos e que os que foram tiveram o objetivo de provar que Jesus é o Cristo, Nosso Salvador.

São por estes motivos que os protestantes e outros autores falham, isolando a Bíblia da Tradição Oral. Logo, o livro de Meier pode lançar confusão, com suas conclusões do tipo "em cima do muro", quando deveria apontar ao leitor que somente com a Tradição podemos ter um entendimento autêntico dos Evangelhos.

Fonte de Pesquisa: Curso de Cristologia, D. Estevão Tavares Bettencourt, Escola Mater Ecclesiae.



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